Arquivo da tag: ano novo – vida nova

Susto!

Padrão

Juro que levei um susto quando parei para olhar a data do meu último post, me pergunto onde foram parar todas as palavras que aqui deveriam estar? E os sentimentos? Quantos sentimentos perdidos, jesus!?!

Só nesse último mês eu devo ter rascunhado dentro da minha cabeça pensante mais de 8 textos, alguns lindos e cheios de amor, outros cínicos como deveriam ser. Sei que se perderam, jamais conseguiria os reescrever. Escrever é vômito para mim. Escrever é terapia momentânea e abuso da imaginação, e me faz muita falta.

Entretanto, relendo alguns textos vejo que apesar do tempo ter voado algumas coisas nunca mudaram, meu amor por alguns, minha eterna briga para equilibrar a(s) balança(s), minha força para lutar pelo o que quero, minha TPM, meu mau humor e meu sorriso, alguns sonhos que continuam no plano metafísico, alguns bons e velhos amigos (e para surpresa da garota que romantiza a amizade como perdi amigos nesses últimos anos, meses, o que me fez perguntar muitas vezes se o se tornar adulto é sinônimo de se tornar egocêntrico). Enfim, mais do mesmo eu diria. Sem grandes guinadas, sem grandes surpresas, porém com muitas coisas boas, outras nem tanto, mas ces´t la vie. Então, talvez eu estaria só reciclando o de sempre, não sei, sei que os textos se foram e com eles  a intensidade do ato descrito.

Sei que quero escrever mais, tenho sempre tanta coisa para exorcizar e harmonizar, tantas para dar risada e reinventar um fim melhor, ou pior. Porém amanhã a vida volta para correria e não sei quando sentarei aqui novamente para conversar comigo mesma, espero que logo, espero que eu encontre um jeito, antes que eu sufoque, antes que eu esqueça, antes que eu desiste novamente de ser mais eu.

Postado ao som de vários mantras, após a queima de um incenso puxado e um banho de ervas!

 

 

 

 

 

Fragmento de um sorriso

Padrão

Num desses tropeços da vida você caiu no meu buraco, quebrado estava, percebi que não fora da queda, você já estava despedaçado e não sei quantas vezes me peguei lhe olhando e perguntando se você já não tinha nascido assim: pedaços de ser, desenho cego de uma criança, ainda sem cor. Custava-me acreditar que você nunca tinha sido uno. Porém um dia você me falou e acreditei nas suas próprias palavras quando de bobeira esbravejou que eu não iria conseguir lhe transformar num homem feliz, você tinha nascido para ser aquele meio alguém tanto para mim como para qualquer outra pessoa. Sem saber, você me fez desistir. Hoje, quando me sinto olhada por você de longe, entendo seu questionamento sobre meu amor e sua força, e tento lhe explicar todas as noites o porquê. Inútil de minha parte, sinceramente não espero que me perdoe por ter lhe deixado no meu buraco, mas entenda, lhe entreguei de coração tudo o que tinha de mais de precioso. Deixei meu espaço, todo ele repleto das minhas boas memórias, tive o cuidado de retirar as risadas que lhe incomodavam, deixei meus melhores pincéis caso um dia você tente se colorir, deixei um armário cheio de carinho e cuidado para te acalentar e um beijo para cada noite, com a esperança que eles jamais lhe firam. E saiba meu amado que se resolvi ir, foi só porque naquele momento eu entendi de uma vez por todas que ao escolher ser fragmentos você escolheu também nunca sorrir, e tudo se fez noite no tal dia dentro do nosso buraco. Eu podia tudo ao seu lado, tudo! Menos me permitir viver sem sorrir.

Postado ao som de Angel – Sarah McLachlan

Roupa no Varal

Padrão

Ah! o varal está cheio de roupas, a casa tem novamente vida. A cozinha voltou a ter sabores e conversas ao pé do fogão enquanto uma boa refeição é preparada para celebrar a vida. Os cômodos novamente se encheram de música e cheiros de incenso ou alguma essência que ela gosta. As velas voltaram a queimar e iluminar. Os amigos chegaram para conhecer, trazer risos e compartilhar felicidade. No quarto começaram a ser impressos novos sonhos e suspiros. Os livros estão sorrindo nas prateleiras e os poemas enfeitando as paredes. A casa ainda está vazia de lembranças penosas, tudo é novo, lágrimas de tristeza ainda não foram derramadas e brigas ainda não aconteceram, mas é questão de tempo, uma casa só está completa quando todos os afetos são vividos. Mas, enquanto isso, a roupa está no varal, perfumando e secando e quando um varal tem roupa é porque alguém tem um lar.

Postado ao som de Ella Fitzgerald & Louis Armstrong – They Can’t Take That Away From Me

Anjo Negro

Padrão

Dias atrás ele apareceu para se despedir, era a última vez que o veria, eu estava pronta, ele disse, não precisaria mais de sua proteção. Seus olhos nunca brilharam tanto como aquela noite, meu coração nunca tinha disparado daquela forma, custa acreditar que fora a última vez que ele esteve comigo.

Um ano atrás em sua primeira aparição ele me causou um temor indescritível, era numa noite de sono agitado, e entre todos os meus demônios ele surgiu, todo de negro, olhos escuros, um olhar terrivelmente penetrante, sua pele era cheia de marcas que o fazia ter uma aparência hipnotizante. Ao pé da minha cama ele ficou, enquanto eu assustada acostumava a sua presença. Apesar do medo sabia que ele não me faria mal, era como se eu pudesse sentir que ali existia amor por mim. Ao me ver mais calma abriu suas asas também negras, e veio para cima de mim, cobrindo-me com elas como se fossem seus braços a me envolver, e como se me abraçasse ternamente ele me deu de presente esperança e sussurrando ao meu ouvido disse que eu não deveria desistir.

Ele voltaria, eu sentia e em paz eu dormi.

Na segunda vez, sob as mesmas circunstâncias, já com o quarto desabitado pelos demônios porém mais inundado de lágrimas, ele ressurgiu, ainda de negro. Seus olhos estavam sorrindo, e no mesmo gesto da primeira vez ele me envolveu com suas asas pretas, sem tocar nos meus lábios senti-o me beijando, não só minha boca, como todo meu rosto, e me beijando ele me trouxe lágrimas novas, aquela noite como há muito não acontecia eu chorei de alegria, algo muito bom estava acontecendo.

Ele voltaria, eu sabia e feliz eu dormi.

Na terceira vez, eu abri os olhos e ele já estava em cima de mim com suas asas e corpo nu, acordei porque senti minha pele arrepiar como há muito não a sentia. Suavemente ele me penetrava, suas asas acompanhavam o movimento do seu corpo e o preto delas brilhava, como se nelas tivessem grudados pequenos faixos de luz no seu caminho para a minha cama. Quando ele gozou dentro de mim ele me trouxe a beleza, em mim e a tudo que estava ao meu redor.

Ele voltaria, eu falei pra mim mesma e lasciva dormi.

Na quarta vez, foi a primeira vez que ele apareceu de dia, reconheci o seu cheiro e senti ele chegando por trás de mim, suas asas me circundando como num casulo. Ele aconchegou sua cabeça na minha, por uns instantes vi seu rosto extasiada, e fechando meus olhos dançou comigo, o quarto era silêncio, mas existia música no ar. Dançando ele me trouxe coragem, eu sabia que a partir daquele momento tudo poderia.

Ele voltaria, foi o que eu desejei, e mais tarde naquela noite forte dormi

Na quinta e última vez, ele novamente apareceu numa madrugada ao meu lado enquanto eu caminhava sob a noite, ao sentir sua presença senti sua saudade antecipada, ele estava sem asas, parecia um homem comum andando ao meu lado na rua, vestido de preto, lindo, nunca o vi tão lindo. Ele estava triste porque seria nosso último encontro, mas ao mesmo tempo feliz porque eu já poderia seguir sozinha. Desesperada tentei segurar sua mão, abraçá-lo, mas não conseguia tocá-lo. Com raiva esbravejei contra ele, como ele teria coragem de me deixar sozinha, perdida, como ele iria embora sem indicar o meu caminho. Mirando no fundo dos meus olhos e sorrindo ele me pede para olhar em volta, e me diz “você já está no caminho, seu caminho é esse, é aqui nesse lugar, sob essa terra, debaixo desse céu”. Quando voltei meus olhos para ele, ele já tinha ido, só ficou seu odor no ar.

Ele não voltaria, e ao deitar na cama naquela noite completa me senti.

Postado ao som de Ney Matogrosso e Pedro Luís e a Parede – Noite Severina

“Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam.” Clarice Lispector

33

Padrão

Era para eu estar casada, com o homem ou a mulher da minha vida. Com três filhos: dois de barriga, um com os meus olhos negros e chorões, meu cabelo cacheado bem escuro, outro com a carinha e jeito do/a meu/minha companheiro/a, e mais um de coração, neguinho lindo, que com 7 anos já ia ter o cabelo rasta. Era para eu ter minha casa, e nela toda essa família linda, um jardim imenso e uma puta de uma biblioteca com todos os meus filósofos, meus poetas e escritores, e um dia, os meus próprios livros. Era para eu ter a Mafalda Carolina, companheira do Calvin Antônio. Era para eu ter a minha moto, uma Shadow 600, com previsão de logo, logo, comprar minha Harley. Era para eu ter minha longboard, e já ter surfado nas praias mais lindas que um dia eu teria conhecido. Era para eu tocar um instrumento, já passei por violão, piano, percurssão e caí no violoncelo. Era para eu ter viajado para vários cantos do mundo e ter conhecido as mais diversas culturas. Era para eu ter sido uma diretora de uma grande empresa, depois dona da minha escola alternativa, onde eu iria, juntamente com outras pessoas que eu amo, fazer a diferença na vida de muitos seres humanos. Era para minha vida estar estável, organizada e dentro do planejamento. Era para eu ser um exemplo de pessoa, de mãe, de mulher, de vida. Era para eu ter realizado muitos sonhos e ter tido uma vida completamente diferente da que hoje eu vivo.

Era, porém não foi e quiçá um dia será. E não tenho problema nenhum com isso, pois quando olho pra trás vejo que pouquíssimas coisas eu mudaria. Acho que o fascinante da vida é justamente isto, essa insanidade, é o nunca sair conforme o planejado, ou como fora idealizado, é essa supresa constante. Me alegra saber que muitas vezes basta dobrar uma esquina para a vida mudar. Pode ser uma pessoa que entra, ou uma que sai, às vezes um livro, um filme, um curso, um pensamento, para tudo virar de ponta cabeça e escolhermos outro atalho do nosso grande caminho.

Claro que ainda idealizo, que vou continuar planejando os próximos passos e sempre vou sonhar, mas sabendo, por experiência adquirida nesses 33 anos vividos, que a estabilidade é mera ilusão e conforto temporário, e, que muitas vezes pode ser sufocante. Hoje sei que me prender demais, seja em antigos sonhos, seja em relacionamentos, seja na carreira, ou em escolhas que um dia achei que eram a mais certas, faz com que a vida fique arrastada demais.

Hoje sei que bom mesmo é estar sempre aberta a novas possibilidades e deixar que o mundo traga coisas boas para mim. Que bom é saber que não posso me cegar e que preciso sempre prestar a atenção nas pessoas que cruzam meu caminho, porque muitas delas trazem presentes consigo e eu mereço ganhar todos.

Bom mesmo é ter a certeza que tudo depende de mim, e só de mim, para dar certo, juntamente com a consciência que apesar de todos os meus esforços as coisas podem não sair como eu quero, porque existe algo maior que eu, que uns chamam Deus, outros destino, outros má sorte, e eu simplesmente tenho que aceitar e abrir mão.

É muito bom ainda sentir o frio na barriga, o medo, a adrenalina, o amor, ainda ser sensível ao ponto de se emocionar com pequenas coisas, ainda vibrar pelas pequenas conquistas e ainda chorar pelas derrotas. É maravilhoso fazer 33 e ter os mesmos olhos onde “as lágrimas pulam” como dizia a minha mãe quando eu ainda era uma menininha de cabelo cacheado.

Postado ao som zen de Reginaldo Frazzato Jr – Água I

7 Faixas

Padrão

Ontem eu estava voltando para casa, casa esta que me pergunto se ainda é minha, há algum tempo sinto que já fiz minha mudança, só não descobri para onde foram as minhas coisas, para onde minha vida está indo.

Há quase 5 anos atrás eu estava de mudança para cá. Na mala, poucas coisas, minhas roupas e pequenos pertences que sou apegada. Chegava nessa cidade insana com o pensamento que em 5 anos eu me mudaria, eu botei o pé aqui já com prazo de validade, jamais imaginei que ele ira expirar com tanta precisão.

Cinco anos depois muita coisa mudou, eu mudei muito, e hoje minha mudança física precisaria de um caminhão, não só da taxa de excesso de bagagem num aeroporto qualquer. Construí uma vida, montei uma casa com uma pessoa que já não mora mais aqui, construí relacionamentos que para sempre serão parte de mim, conheci pessoas maravilhosas que vou carregar na mudança dentro da caixa “amigos”, sofri, caí numa depressão, encontrei o que eu amo fazer e quero para minha vida. Vivi momentos de pura felicidade e alegria, realizei sonhos e amontoei mais um bocado para, assim que possível, realizá-los, esqueci de alguns, e outros fui obrigada a esquecer.

Sampa me acolheu, se mostrou uma cidade maravilhosa para morar, apesar do caos, e ao mesmo tempo insuportável ao ponto de ter quisto abandoná-la muito antes dos 5 anos. Ontem, meio em transe, dirigindo pela marginal pinheiros, fui acompanhando as placas, muitas placas indicavam rodovias que me levariam para cidades que ainda quero morar, ou voltar, ontem era só escolher em qual das 7 faixas eu deveria ficar para tomar o meu rumo, encontrar minha mudança, continuar minha vida.

Quando a vida te oferece 7 faixas a escolha fica difícil e mais angustiante, ainda não decidi se quero pegar a Régis, a Dutra, a Anchieta. Então, sensata peguei a faixa 6, rumo à minha casa vazia, certa que não vou conseguir viver muito mais tempo nela, é difícil viver numa casa vazia e ao mesmo tempo é reconfortante saber que ainda existem mais 6 faixas para eu caminhar.

Postado ao som da DaB (Digital Analog Band) – Pure Joy

Horário de Verão

Padrão

Esta noite voltamos uma hora no relógio, está aí algo que desejamos algumas vezes em nossa vida, voltar o tempo, e muitas vezes nem precisaria ser uma hora, 5 minutos bastariam, segundos.

Temos dias saudosistas, claro, queremos voltar para a infância onde tudo era tão fácil, voltar para adolescência, tempo da faculdade, onde tudo era uma festa, nos sentíamos imortais e podíamos tudo. Voltar para aquele momento de extrema felicidade, seu casamento, nascimento do primeiro filho, quando você conheceu seu grande amor, quando você conquistou algo que tanto desejava e tantos outros.

Estes “querer voltar no tempo” não passam de reviver boas memórias, lembranças que ao fechar dos olhos conseguimos revivê-las, cheirá-las, saboreá-las, e sentir o calor novamente.

Por outro lado, existe o querer voltar no tempo que vem acompanhado de arrependimento, às vezes de amargura, raiva, é aquela vontade de apagar as lembranças, a consciência, a dor, a falha.

Voltar para o tempo que você era mais feliz, leve e magra. Voltar aqueles 5 mimutos para não precisar escutar ou falar o que foi despejado. Voltar para aquele mês que você sentiu que tinha algo errado, mas que por egoísmo não quis gastar sua energia para resolver, confiando no tempo, esquecendo que tempo muitas vezes agrava, tanto quanto ajuda. Voltar para aquele segundo que você não quis dizer “eu te amo”, “perdão”, “fica mais um pouco”, “não vá embora” ou “vá embora”. Voltar para aquele dia que você tomou o caminho errado, a decisão precipitada, o atalho torto. Voltar para o instante em que você começou carregar está bagagem pesada, e que hoje em dia nem sabe o que é viver sem ela, você se acostumou ao peso no final das contas, mas você lembra o exato momento que a adquiriu.

Infelizmente ou felizmente, voltar o tempo só acontece uma vez por ano, quando acaba nosso horário de verão. Os outros voltar, ficarão só na nossa mente, uns de forma boa, outras remoendo e desgastando nosso presente. Não tem como voltar, os momentos passam e não há o que podemos fazer com eles, nossa única mágica é fazer algo no agora.

E esse algo muitas vezes implica perdão, se perdoar principalmente, implica em desejar se libertar, em desejar esquecer, em desejar seguir em frente sem a bagagem, desejar recomeçar, se dar outra chance, mudar o rumo das coisas, dar um novo significado, buscar coisas novas, viver mais e com a cabeça erguida. Tenho certeza que cada um sabe o que precisa ser feito, e o quanto é difícil, mas necessário e vital.

Então faça, faça logo, para não deixar que sua luz apague aos poucos só porque você não  consegue fazer o que mais ninguém fez: voltar no tempo.

Postado ao som de Josh Rouse – Fligth Attendant