A respiração que precede ao toque

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Quando ele a beijava tudo por segundos fazia sentindo e se justificava. Ela era dele e nunca mais conseguiria ser de outro. O perfeito encaixe dos maxilares. Através do olhar dele ela se sentia a mais bela e desejada das mulheres. Ele tinha adoração por sua pele, pelos e líquidos, ela sabia que merecia essa adoração. Ele a tratava como única, ela se sentia a única. Ele conhecia cada lugar de seu corpo que lhe dava prazer, ela estremecia. O toque lento e profundo, as digitais dele a penetravam com cuidado e vontade, dilacerando seus músculos e amarras. Ela se entregava. Rendida, ela sempre suplicava por mais um toque, se abrindo em pernas e poros, para receber prazer. Recebia, sempre recebia, porque a fome dentre eles era insaciável, passavam horas e horas se amando disfarçados de sexo. A maioria das coisas nunca precisaria ser dita, eles se entendiam por gemidos, risadas, gozos e olhares. E era quando o olhar negro dela congelava no olhar verde azulado dele que ela sabia que pela primeira vez ela estava inteira para outro ser e que aquele homem resolveu ser inteiro para ela, para sempre a mesma sensação. Porém, medo ela tinha, então, sugava tudo o que podia daquilo, pois a fome poderia vir.  E no momento que sentia a mão dele a se aproximar, inspirava fundo, fazia uma pequena prece de agradecimento, fechava os olhos e expirava, para sentir pelo menos por mais uma vez àquele toque.

Postado ao som de Ashley Monroe & Brendan Benson – Consider me

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200 Cigarros

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Decidi que vou parar de fumar, e para isso pela primeira vez na minha vida comprei um pacote de cigarro, 10 maços, com 20 cigarros cada. O último cigarro, o último beijo, a última trepada, a última barra de chocolate, a última cerveja ou dose, o último dia de preguiça, a última vez que vou falar com ela/ele, a última vez que faço isso ou aquilo, realmente não funcionam comigo, meu “nunca” às vezes dura apenas 2 horas. Por isso, resolvi que vou fumar meus últimos 200 cigarros (e alguns extras).

Pra eu deixar de fumar é deixar para trás a única coisa que tenho equilibrada na minha vida, como boa libriana que sou busco incansavelmente o equilíbrio nas coisas sem nunca chegar nesse ideal… óbvio! Mas com cigarro não, fumo desde os 14 anos e de uma forma totalmente equilibrada, aliás minha experiência com cigarro foi quando eu ainda era criança, mas essa história é para outro dia. Por que equilibrada? Porque até hoje não me considero viciada, paro de fumar na hora que acho que devo, sem sofrimento, fico dias sem fumar, e de repente fumo um, tem dias que vou fumar vários, como já fumei um maço numa tacada, e assim vai, fumo ou não fumo, sem ter a necessidade de fumar por fumar. Eu tenho controle sobre essa ato/fato, isso é tão raro, nunca tenho muito controle nas coisas da minha vida, mas quem tem?

Então belo dia desses, me bateu uma crise, logo irei fazer 35 e me toquei que estou me tornando uma adulta velha, logo uma coroa (dependendo do ponto de vista, claro!), e não é crise de idade, só uma crise boa, me toquei que existem algumas coisas que preciso fazer antes dos 40, porque sei que irei perder a vontade lá na frente, a cada década perdemos o tesão por um punhado de coisas, ganhamos tesão por outras tantas e a vida segue, cada idade com suas vontades e paciência.

Me toquei também que preciso cuidar da minha pele porque não quero chegar os 60 com cara de 70, por isso o cigarro, chegou a hora, assim como chegou a hora de levar a sério o tratamento dermatológico, os exercícios e a dieta saudável (pelo menos durante a semana). E assim, como as coisas que preciso cuidar no corpo, fui fazendo mentalmente uma lista de coisas que ainda preciso fazer nos 30, e essa lista me deixou feliz. Não é uma questão de ter objetivos, porque não existe nada de sério nela, nenhuma projeto grandioso, é só uma questão de ter a plena consciência de como gosto de viver a vida e me divertir.

Acho as pessoas em geral chatas, levam tudo muito a sério e fazem a vida ficar muito preto no branco. Amam de menos, riem pouco, dançam quase nada, não fazem muito do que gostam, nem do que vivem, ficam dia a após dia matando tempo de vida, esperando o dia de fazer uma aventura, de viver algo grande, de fazer o que sempre sonhou ou de ir naquele lugar ali do lado. E não temos todo o tempo do mundo, isso é um fato, então porque não hoje ou pelos nos meus próximos 5 anos até os 40?

Por isso minha lista, pois no meio da minha rotina, e entre um domingo depressivo e outro, eu tenho que ter momentos bons e memoráveis, seja um porre com amigos, seja uma grande viagem, aquela rave no final do ano ou a tattoo nova. Sei lá, qualquer coisa que me faça feliz e leve, aquela sensação boa que tenho quando estou dançando uma música deliciosa no meio da sala e rindo sozinha. Momento que sei que a vida é ótima pra caralho, que nenhum problema é grande demais, nenhuma desilusão irá tirar minha fé e nenhuma ferida ficará aberta para sempre. Afinal, temos álcool, amigos, bons amores, comida boa, aquele baseado especial, aquele filme que toca, ouvidos que escutam, praia e caminhadas, noites estreladas, dias azuis, chuva pra dormir, chuveiro quente, muitos doces, e para sempre, aquele cigarrinho terapêutico, não é?

Postado ao som de Mallu Magalhães – Velha e Louca

Previsão de Neve

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Naquele domingo melancólico o frio fora do seu apartamento batia em sua janela trazido pela chuva e vento, 2ºC era o que informava seu celular, na madrugada previsão de neve, fazia tempo que ela não a via, a neve e seu amor, ela pensou. Ex amor na verdade, ela retificou o pensamento. Na verdade já não sabia o que aquela mulher significava, alguém que um dia significou tanto, aos olhos do tempo se torna quase sem contorno, menos que uma sombra. Estranho era o amor, ou as pessoas, nunca tinha chego à uma conclusão.

Precisava de uma boa caneca de chá, porém não era só frio do ambiente que a estava incomodando, era o frio que vinha de dentro. Há tempo sozinha, há tempo se protegendo do sofrer, há tempo a solidão era sua companhia, estava cansada, ela sabia. Opção ou falta de opção, isso não sabia. Aliás, existiam muitas coisas que ela não sabia sobre ela mesma. O fato é que a previsão da neve despertou nela lembranças e dores, e as cicatrizes começaram a coçar, algumas tinham se tornado quelóides, outras marcas de verão na pele. Fazia tempo que elas não a incomodavam, afinal tinha escolhido não pensar mais no que se fora, nem em quem ela se tornara, com isso ela também ficou suspensa em sua vida. “Vida só de coisas boas não existe”, t’aí outra cousa que ela sabe.

Contudo, noites gélidas e domingos têm essa força dentro dela, de jogar o frio na cara e a solidão nos pés, geralmente ela se mantinha forte, mas a previsão de neve, há mais de uma década não nevava em sua cidade, estava pesando demais e quando no celular chega a mensagem, de algum amigo desavisado sobre seu estado emocional naquele momento, perguntando como ela estava, não aguentou, foi como uma facada e no chão sentou para sangrar.

Lá ficou por milhares de segundos, chorando através de todas as cicatrizes, lembrando de momentos, diálogos, caras e caretas. Recordando antigas lágrimas, sonhos abandonados, planos nunca concretizados, amores destruídos, sorrisos perdidos, amizades indo, fatos nunca acontecidos. Solidão no olhar, coração carente, pernas fechadas para o toque.

Lá ficou até as lágrimas secarem e ter a coragem de levantar, o chá agora gelado não fazia muita diferença, estava exausta, seu passado lhe cansava, mas mais ainda o futuro que nunca chegou, ela sentia nessas horas que ainda corria para Ele, mesmo tendo a certeza de que Ele nunca viria a ser presente. Não sabia como desapegar, não sabia como se apegar.

Foi para a janela, a neve já tinha coberto a grama, e caía forte, – 3ºC, mais frio que isso ela tinha certeza que nunca seria, era disso que ela precisava, só disso, a chance de voltar para o zero. E ali naquele momento, fitando o termômetro, ela soube que pelo menos nos próximos anos não iria nevar.

Postado ao som de Norah Jones – Good Morning

Sempre como um fim, nunca como um meio

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Esses dias estava escutando uma conhecida falar sobre seu casamento de 18 anos, e que uma das coisas que ela mais gosta de fazer com o marido é conversar, eles passam horas e horas, às vezes até de madrugada conversando. Besteiras, coisas sérias, resolvendo problemas, traçando planos, desabafando, compartilhando o dia, a vida e tudo que nela tem de bom e de ruim.

E coincidentemente eu tinha falado para uma amiga naquele mesmo dia, sobre um ser que reapareceu na minha vida, e que a coisa que eu mais gostava entre a gente era as nossas conversas. E esse mesmo ser, dia desses, falou em resposta ao meu “a gente funciona melhor como amigos, melhor tirar o sexo da jogada dessa vez”, que eu estava certa porque sexo gera intimidade e com isso a falta de respeito.

Fiquei pensando sobre isso e cá estou, e não concordo com ele, porque somos íntimos desde o momento que nos conhecemos, antes do sexo, e por experiência própria sei que sexo não gera intimidade, não esse tipo de intimidade que me encanta. A intimidade do sexo é rasa, fazemos isso com estranhos, fazemos sexo por anos com algumas pessoas e não conseguimos ser íntimos. Para a maioria das pessoas damos um limite de até onde ela pode nos conhecer, até onde queremos mostrar quem realmente somos, às vezes é proteção, noutras pela imagem construída, outras porque realmente dá trabalho bancar quem se é para o mundo.

Para mim, intimidade é justamente isso, a liberdade de poder ser o que se é, sem medo do julgamento, de ver o horror estampado na cara da pessoa por algo que você fez, é não precisar pisar em ovos, nem dizer meias verdades, é poder mostrar o seu pior e ter a certeza que a pessoa continuará ali do seu lado, porque ela sabe que você é só humano, e ser humano não é nem ser vil e nem bom, é só uma questão de existir. Intimidade também é poder mostrar o seu melhor, sem parecer bobo, sem se achar vulnerável ou fraco.

E concluo que todas as pessoas que me apaixono, com sexo ou sem sexo, são pessoas que me torno íntima em questões de horas, elas me deixam ser sem preocupações, às vezes podem até se chocar e me reprimir por algo que discordam, eu aceito, eles me aceitam por aquilo, e a vida continua, e vice-versa. Onde tem intimidade não tem desrespeito, e pra mim relações íntimas são simples assim. É um perdão instantâneo, é a ausência de julgamento, é o ouvido que realmente escuta, é o abraço que realmente acolhe.

Aliás, o abraço forte e gostoso, é uma das expressões físicas da intimidade. Pense quantas pessoas você realmente abraça, sem medo da pausa, sem medo de correr o risco de escutar um coração batendo no outro peito, sem tempo para acabar? Então…. guarde-as com carinho, pois são elas que fazem a gente valer a pena.

Postado ao som de Chopin – Raindrops (Prelúdio)

Eu Não Preciso de Cura!

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Hoje foi mais um dia triste para o Brasil, em meio a protestos válidos e o vandalismo instaurado por várias cidades do nosso país, algo de muito sujo acontecia em Brasília. A Comissão de Direitos Humanos, em uma votação simbólica, aprovou o projeto “Cura Gay”, o projeto agora segue o caminho para votação em outras instâncias, e creio que não irá chegar à Câmara, mas nunca sabemos até onde vai o poder das igrejas que estão no nosso governo.

Nós gays precisamos de sua atenção, precisamos que toda a sociedade olhe para o que está acontecendo, pois estamos ficando com medo.

Eu não sei como traduzir a tristeza que é deslumbrar a possibilidade de novamente sermos tratados como doentes, que nossa opção sexual poderá ser tratada como uma patologia em que algumas sessões de terapia, quem sabe algum remédio novo (ou no pior dos casos uma sessão com um bom pastor) poderiam  nos curar.

Esse ideia é tão repugnante e fere num grau tão profundo nossa humanidade, que sentimentos de revolta surgem quase que instantaneamente. Mas não podemos sair por aí espalhando preconceito e ódio contra cristãos, evangélicos e homofóbicos em geral, seria nos rebaixarmos a ignorância deles. Mas, como então nos defender? Como fazer com que as pessoas nos encarem como seres humanos dignos de respeito, que só querem viver plenamente? Como não se revoltar?

Precisamos de ajuda, não tenho dúvida, somos uma minoria e precisamos da ajuda de todos que nos veem com o mínimo de simpatia, que seja, compaixão. Não me fale que você não tem nada a ver com isso! Você tem e sempre terá, por mais heterossexual que você seja, tenho certeza que se um dia alguém que você ama lhe diga que é homossexual você vai desejar que ele tenha o direito de ter todos os mesmos direitos que você e que não seja tratado como doente.

Então, por favor nos ajudem, não deixem a violência e a ignorância ser maior!

Eu sou bissexual e eu não preciso de cura!

Postado ao som de Tok Tok Tok – Walk On The Wlid Side

Às vezes acontece…

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E de repente virou amor, depois de tanto tempo, de tudo tão estabelecido em nossas vidas, eu me vi te amando. Me pergunto como aconteceu? Por que aconteceu? Não fazia parte dos planos, o combinado era você vir, me dar prazer e ir, como se fôssemos dois estranhos, repetindo o mesmo ato ensandecido pós bebedeira que nos uniu. Mas você resolveu ser gentil, se preocupar, me dar carinho, colo, você virou meu amigo, meu amigo!. E com isso, você mostrou o que de melhor tinha dentro do seu coração e começou a fazer meus dias mais leves e meu sorriso se entregou para você com uma facilidade assustadora. Mas como Rainha de Espadas que sou, eu racionalizei tudo o quê estava acontecendo do alto do meu trono com extrema segurança e a arrogância que eu jamais me deixaria levar. Mas a cabeça não manda quando a alma vibra, e num misto de dor/amor e desprezo por você ser tão bom comigo eu concluo que está na hora de você ir. Vá e me deixe aqui no meu mundo, que ele é de pedra e seguro. Vá e leve consigo todos os meus gozos e suspiros. Te arranca da parede e do meio da minhas pernas. Leva seu cheiro, seu corpo que tanto me pesa nessa hora e essa presença invisível que ronda pela minha casa como um mal olhado que me deseja, leva tudo de bom que você tem, porque não é para mim, nunca foi e nunca será, e pelo menos com relação a isso eu ainda consigo pensar.

Postado ao som de Massive Attack – Teardrop

Para escrever

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Para escrever eu preciso que minha insanidade esteja latente, preciso transpirar loucura por todos os póros e almoçar pensamentos obsessivos com direito a uma taça de alucinações. Para escrever preciso me sentir triste, despedaçada, chorosa como o trompete de um jazz, vendo a vida em cinza, me afogando num copo de uísque e desejando ópio. Para escrever preciso sentir raiva, daquela corrosiva, aquela que deseja vingança e sangue espirrado pelas paredes brancas, ossos quebrados e supercílios expostos. Para escrever preciso sentir medo, chorar baixinho sozinha no escuro, sentir a espinha arrepiar por algo que nem está ali, preciso me sentir alerta, com os sentidos batendo, preciso escutar o “corra!! corra antes que seja tarde”. Para escrever eu preciso estar lasciva, com os dedos conectados ao meu corpo, com a cabeça delirando de tesão e os orgasmos sendo pintados pela casa. Para escrever preciso sentir fome, fome de carinho e contato, desesperada por um bocado de amor, ávida por fluídos, esfomeada por um olhar, faminta por um abraço. Para escrever preciso sentir fé, sentir que a montanha irá se mover, que o camelo irá passar, que o cego irá enxergar e os mortos, todos os mortos sem exceções, irão ressuscitar. Para escrever eu preciso me sentir lixo, gente bonita, ser outros, me sentir nele, ela, ser multidão ou pó. Para escrever eu preciso ser desgraça, navalha cortando a carne, a bílis sendo vomitada, juntamente com toda a minha podridão. Para escrever eu preciso também amar muito e profundamente, assim como, ser solidão, bondade e sorriso. Enfim, para escrever é preciso vida e uma dose de desinibição acompanhada de uns bons cigarros e coragem, pois preciso me despir… afinal… só estando nua que posso ser lida.

Postado ao som de Miles Davis – It Never Entered My Mind