Previsão de Neve

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Naquele domingo melancólico o frio fora do seu apartamento batia em sua janela trazido pela chuva e vento, 2ºC era o que informava seu celular, na madrugada previsão de neve, fazia tempo que ela não a via, a neve e seu amor, ela pensou. Ex amor na verdade, ela retificou o pensamento. Na verdade já não sabia o que aquela mulher significava, alguém que um dia significou tanto, aos olhos do tempo se torna quase sem contorno, menos que uma sombra. Estranho era o amor, ou as pessoas, nunca tinha chego à uma conclusão.

Precisava de uma boa caneca de chá, porém não era só frio do ambiente que a estava incomodando, era o frio que vinha de dentro. Há tempo sozinha, há tempo se protegendo do sofrer, há tempo a solidão era sua companhia, estava cansada, ela sabia. Opção ou falta de opção, isso não sabia. Aliás, existiam muitas coisas que ela não sabia sobre ela mesma. O fato é que a previsão da neve despertou nela lembranças e dores, e as cicatrizes começaram a coçar, algumas tinham se tornado quelóides, outras marcas de verão na pele. Fazia tempo que elas não a incomodavam, afinal tinha escolhido não pensar mais no que se fora, nem em quem ela se tornara, com isso ela também ficou suspensa em sua vida. “Vida só de coisas boas não existe”, t’aí outra cousa que ela sabe.

Contudo, noites gélidas e domingos têm essa força dentro dela, de jogar o frio na cara e a solidão nos pés, geralmente ela se mantinha forte, mas a previsão de neve, há mais de uma década não nevava em sua cidade, estava pesando demais e quando no celular chega a mensagem, de algum amigo desavisado sobre seu estado emocional naquele momento, perguntando como ela estava, não aguentou, foi como uma facada e no chão sentou para sangrar.

Lá ficou por milhares de segundos, chorando através de todas as cicatrizes, lembrando de momentos, diálogos, caras e caretas. Recordando antigas lágrimas, sonhos abandonados, planos nunca concretizados, amores destruídos, sorrisos perdidos, amizades indo, fatos nunca acontecidos. Solidão no olhar, coração carente, pernas fechadas para o toque.

Lá ficou até as lágrimas secarem e ter a coragem de levantar, o chá agora gelado não fazia muita diferença, estava exausta, seu passado lhe cansava, mas mais ainda o futuro que nunca chegou, ela sentia nessas horas que ainda corria para Ele, mesmo tendo a certeza de que Ele nunca viria a ser presente. Não sabia como desapegar, não sabia como se apegar.

Foi para a janela, a neve já tinha coberto a grama, e caía forte, – 3ºC, mais frio que isso ela tinha certeza que nunca seria, era disso que ela precisava, só disso, a chance de voltar para o zero. E ali naquele momento, fitando o termômetro, ela soube que pelo menos nos próximos anos não iria nevar.

Postado ao som de Norah Jones – Good Morning

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  1. Aí Ju, os teus textos me trazem tanta lembraça do passado, qdo. eu leio fico só matutando coisinhas na minha cabeça boas e não boas. Beijos!

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