O dia que eu cheguei atrasada

Padrão

Lá estava eu no casamento daquele homem, lindo, com aquele olhar meigo e aquele sorriso que ilumina, que sempre transbordou amor ao me olhar. Ele me viu crescer, primos, crescemos entre encontros e desencontros. Da paixão da adolescência para o casamento parece que foi um pulo. Passamos anos afastados, a juventude desenfreada onde cada um andava com a sua turma, depois as faculdades e aí nos tornamos adultos e cada um seguiu o rumo da sua vida profissional, em cidades diferentes daquela que nos juntou ainda bebês. Às vezes encontros ao acaso no elevador do prédio de nosso pais, outras em festas da nossa querida família. A cada encontro a total falta de assunto, o desconforto de duas pessoas que viraram adultas e nunca conseguiram viver seus desejos e sentimentos um pelo outro. Encontros rápidos selados por abraços e saudades, muitas saudades.

Eu não lembrava o quanto ele era bonito, o quanto ele me encantava com aquele sorriso bobo. Eu não tinha observado que ele já era já homem feito até o seu casamento. Ver ele entrar naquele salão ao lado de sua mulher, fez meu coração saltar, estava errado aquilo, era para eu estar ali ao seu lado, era para nós termos ficados juntos, estava tudo errado naquela cena. E só naquele momento percebi o curso que minha vida fez, só ali eu enxerguei que me perdi dele, e me perdi porque quis.

Ao nos encontrarmos ele disse ao meu ouvido que me amava, aquele amor que eu reconhecia porque sentia, uma mistura de amor fraternal com o carnal que nunca soubemos lidar. Minha vontade era pegar em sua mão e sair dali, ter a coragem de dizer: “para tudo, é comigo que você tem que ficar, é ao meu lado que você tem que construir sua vida, é a nossa vida que você está nos tirando”. Insano da minha parte seria, e calada fiquei com peito esprimido, latajente, minguando aos poucos.

A festa foi noite a dentro e entre olhares cruzados e sorrisos de felicidades, fui me conformando que atrasada eu estava. Quando fui embora procurei ele em todos os cantos e o achei sozinho bebendo sua última dose antes de começar sua vida como marido. Ao me abraçar, ele me beijou na boca e disse mais uma vez que me amava. Olhei nos olhos e correspondi dizendo que eu o amava/amo muito também. Embora fui, com o corpo estremecido, desejando-o, de uma forma que eu nunca antes o tinha desejado.

Mas era tarde, tarde demais para nós dois.

Postado ao som de Federico Aubele – En Cada Lugar

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s